
A rádio Voz da Planície (Beja), destaca a importância que o dia de hoje, 26 de Janeiro, teve há 35 anos anos para milhares de pessoas, sobretudo no Alentejo, mas também em muitas outras regiões do país. Neste dia, em 1975, realizou-se em Beja, na Sociedade Capricho Bejense um plenário de delegados do Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas do Distrito de Beja que deu, se assim se pode dizer, "o pontapé de saída" na Reforma Agrária que, no seu auge, envolveu mais de 50 mil trabalhadores agrícolas e mais de um milhão de hectares.
O Arronches em Notícias não podia deixar de assinalar a comemoração dos 35 anos daquele que foi um dos períodos da história nacional recente que marcou decisivamente, e por consequência, a história do Alentejo: a Reforma Agrária.
Pelo facto, dedicamos este texto a todos aqueles que lutaram na tentativa de trazer melhores dias para os campos de Portugal, e mais concretamente para os campos do Sul, e também a todos aqueles que apanhados pelas circunstâncias históricas do atraso da agricultura portuguesa com milhares de hectares abandonados ou simplesmente transformados em reservas de caça, acabariam por ver as suas propriedades ocupadas.
Em Arronches a Reforma Agrária também teve a sua história, embora essa mesma história ainda esteja por fazer, amada por uns e odiada por outros, ainda é um tema difícil de abordar.
O pouco que foi publicado alusivo ao concelho de Arronches poderá ser encontrado no livro “Reforma Agrária no Distrito de Portalegre – textos e entrevistas, 1978”, do escritor e publicista António Navarro.
A Reforma Agrária é marcada pela frase “a terra a quem a trabalha”, bem como pelas ocupações de terras, nacionalizações de herdades e expropriações das mesmas, sendo considerada por muitos como o período mais difícil do processo revolucionário, onde era normal ocorrerem manifestações, verem-se paredes caiadas com ameaças e condenações à morte, embora segundo consta nunca nenhuma tenha ocorrido.
A agricultura portuguesa até à Revolução dos Cravos não tinha uma participação activa a nível político, pois nem sequer existia um reconhecimento ministerial estando inserida no Ministério da Economia como Secretaria de Estado da Agricultura.
Depois da revolução, é então criado o Ministério da Agricultura, surgindo com este os “centros de reforma agrária”, e com o Decreto-Lei n.º 236-B/76 de 5 de Abril de 1976, nasce a Zona de Intervenção da Reforma Agrária (ZIRA), a qual abrangia os distritos de Beja, Évora, Portalegre e Setúbal, parte do sul do distrito de Castelo Branco e de Santarém, bem como dois concelhos de Lisboa e as freguesias do distrito de Faro confinantes com o distrito de Beja.
No entanto, as ocupações de terras começaram a emergir, e para Afonso de Barros estas ocupações dividiram-se em três fases: a 1.ª - de fins de 1974 até Julho de 1975; a 2.ª - em pleno “Verão Quente” de 1975; e a 3.ª - de princípios de Outubro de 1975 até Dezembro do mesmo ano.
A 1.ª fase caracteriza-se pela ocorrência das primeiras ocupações de terras, quando há um agravamento do desemprego sazonal. É precisamente aqui que existe alguma controvérsia à volta de qual terá sido a primeira a ser ocupada. E se para o ex-governador civil de Évora, Alves Pimenta, a primeira ocupação surgiu na Herdade de Pombal (distrito de Évora), já para António Barreto ocorreu na Herdade do Outeiro ou Herdade do “Zé da Palma” (concelho de Beja).
Na 2.ª fase o movimento de ocupação de terras tem a sua maior expressão, e os trabalhadores apoiados pelo PCP e pelo MFA, assumem claramente a sua intenção de modificar as relações de propriedade e de produção.
Durante a 3.ª fase do movimento ocupam-se cerca de 60% do total das terras a expropriar, finda o período revolucionário que ficou conhecido como PREC e nascem as Unidades Colectivas de Produção (UCP).
Fontes: Rádio Voz da Planície, Revista Alma Alentejana, Blog A Cinco Tons.